Histórico
Em 2002 ao fundar uma conferência sobre Modelagem Matemática, em um congresso internacional, algumas questões dirigidas a mim naquele instante deixaram-me sem respostas, tais como: Qual a dimensão ou extensão da Modelagem Matemática no Ensino brasileiro? Como e há quanto tempo a Modelagem Matemática vem sendo adotada como método de ensino na Educação brasileira? Como os educadores brasileiros implantam a Modelagem em suas práticas? O fato é que além de não saber respondê-las, até esse momento, tais questões não haviam suscitado em minha mente. A busca pela resposta a essas questões tornou o ‘germe’ do CREMM que passou a existir neste setembro de 2006 um espaço físico e virtual a adeptos ou interessados em modelagem matemática no ensino.

Desde que ouvi pela primeira vez falar de Modelagem Matemática, em 1986 por meio do professor Rodney Bassanezi da Universidade de Campinas (UNICAMP), entusiasmei-me tanto com o tema que não mais o abandonei. Comecei com alguns trabalhos experimentais em sala de aula nos Ensinos Fundamental e Médio, em primeira instância e conseqüentemente na Educação Superior, em segunda instância, que me permitiram algumas reflexões e até efetuar propostas (no início da década de 1990). Essas reflexões e propostas foram tomando corpo, sofrendo modificações na medida em que divulgava e me inteirava com os educadores de matemática.

Ao passar a divulgar os primeiros resultados das pesquisas aos professores de matemática de diversas regiões do país e exterior, a repercussão foi e vem sendo significativa no Brasil e, em alguns países, levando-me a ganhar adeptos e a realizar outras relevantes pesquisas. Fato é que desde 1986 realizei inúmeras palestras, conferências, cursos de formação continuada e pós-graduação, em Universidades e Instituições de Ensino e em Congressos Nacionais e Internacionais. Concomitantemente orientei algumas dezenas de projetos, monografias de pós-graduação e dissertações de mestrado, onde as aplicações realizadas por estes orientados com os seus respectivos estudantes tornaram-se a essência desses trabalhos, os quais foram publicados em forma de livros e um número considerável de artigos.

Vale destacar que é crescente o número de professores e estudantes de graduação e pós-graduação que faz contato solicitando orientação, materiais de apoio didático para utilizarem sala de aula e textos ou indicação bibliográfica para pesquisa. Com a Internet esses contatos diários são significativos.

Apesar da minha intensa movimentação e de certa percepção sobre o interesse pela modelagem matemática no ensino, até o momento em que me fizeram aqueles questionamentos no Congresso mencionado no início deste texto, verifiquei que não havia dados suficientes sobre a utilização da Modelagem no ensino brasileiro e principais dificuldades e possibilidades dos professores em implantá-la em suas práticas educacionais. Tampouco se dispunha de um mapeamento das pesquisas e atividades em modelagem matemática já realizadas. Esse mapeamento que permitiria e agora permite a nós adeptos ou pesquisadores da modelagem, saber onde estamos, quais são as raízes ou influencias recebidas. E mais, que nos possa propiciar alusão ao passado e aportes aos caminhos a serem perquiridos.

Assim, com o propósito de explicitar como a modelagem matemática foi introduzida e desenvolvida na Educação Matemática brasileira e dispor de um mapa referência de experiências e pesquisas realizadas, passei a partir de 2003 a fazer o mapeamento das ações pedagógicas dos professores que tiveram algum contato com a modelagem.

Dei início com o mapeamento de minhas próprias ações em modelagem matemática. Esse mapeamento levou-me a um dos meus ‘mapas mentais’: identificar trilhas e atalhos percorridos, e me lembrar de fatos, pessoas, lugares; viajar no tempo e no espaço concebido pela memória; expor documentos importantes (cartas, bilhetes, cartões de educadores, certificados, fotos, etc.) que jaziam em algumas pastas e caixas de acervo próprio. Com esse mapeamento foi possível avivar fatos, histórias e estórias e de momentos tão ricos que me fizeram e me transformaram em cada instante.

Na seqüência procurei identificar os precursores da modelagem no ensino brasileiro; embora os professores Rodney C. Bassanezi, Ubiratan D'Ambrosio e Aristides C. Barreto eram identificados como os 'pais' da modelagem não dispúnhamos de uma história escrita sobre as ações deles. Assim, passei a conhecer as suas primeiras práticas de sala de aula, orientações e textos pela modelagem nas décadas de 1970 e 1980. Isso contribui pra eu escrever as memórias da modelagem no ensino brasileiro e, ainda mais, conhecer como suas idéias foram sendo disseminadas, entendidas e transformadas. Assim, atualmente se pode identificar pelo menos três concepções distintas de modelagem no ensino.

E, completando esse mapeamento da modelagem passei a levantar a produção acadêmica (relatórios de pesquisas, monografias, dissertações, teses); os livros e artigos em revistas; os cursos de pós-graduação e de formação de professores de matemática que têm incluído à grade curricular a Modelagem no Ensino como disciplina; os cursos de formação continuada de modelagem para professores; os trabalhos apresentados em Congressos e os documentos oficiais que trazem da forma mais ou menos explícita a modelagem como método ou estratégia de ensino. A rede virtual foi essencial para o levantamento desses dados. Grande parte dessa produção acadêmica consegui adquirir, compondo o acervo do CREMM e, ainda, permitindo-me elaborar um mapa referência desta produção quanto às concepções epistemológicas e metodológicas adotadas nas pesquisas.

Esse mapeamento da modelagem matemática no ensino brasileiro, ainda que incompleto, além de me trazer subsídios para responde aquelas questões iniciais, também me fez reunir física e virtualmente de um grande acervo. Nesse contexto, emergiu a idéia de criar o Centro de Referência de Modelagem Matemática no Ensino para reunir, cada vez mais, produções acadêmicas de Modelagem do Brasil e demais países do mundo (sejam relatos de experiências, sejam divulgações de pesquisas); divulgar esses materiais a todos os interessados e, mais ainda, promover um conjunto de ações virtuais e presenciais com o apoio de professores pesquisadores, representantes de diversos países e ações, como: cursos a distância, seminários, materiais de apoio didático, orientação e sugestões para o ensino e para a pesquisa.

Muito embora não seja panacéia para a superação de todos os problemas da prática escolar, os quais relativos ao ensino de matemática, as ações e as pesquisas demonstram o quanto a modelagem pode representar o grande avanço na aprendizagem de matemática e na aprendizagem de pesquisa tanto aos estudantes quanto aos professores.

Por acreditar nisso, espero que o Centro de Referência da Modelagem Matemática no Ensino – CREMM, que inaugura nesse ano de 2006, possa dar sua contribuição à Educação Matemática em todos os níveis, indicando o conhecimento produzido, permitindo aos interessados a criar novos sentidos e relevantes conhecimentos. Esse Centro deve possibilitar uma geração de conhecimentos novos sobre questões educacionais, desenvolver mapas-contexto que levem a novas realidades, presentes, mas talvez, incapazes de ganhar visibilidade significativa para a melhoria da Educação.
Professora Dra. Maria Salett Biembengut
Idealizadora e Fundadora do CREMM
Blumenau (SC) - BRASIL, outubro de 2006
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