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AGENDA 


28/03 a 26/04 - Exposição "Telúrica" de Jéssica Paiva

Trazer um punhado de Terra para uma galeria de uma maneira asséptica, fora de seu habitat e desarticulada de sua função primordial e natural, que é a de receber seres vivos ou mortos, evoca sentimentos ambíguos. A Terra para a artista Jéssica Paiva se faz como um espaço sagrado e consciente, onipresente na cidade, no campo e consequentemente em todos os continentes. A Terra provê alimentos, germina plantas e decompõe seres, reciclando o que é entendido como ciclo da vida natural.


Quando trazemos o elemento Terra para o campo das Artes, da política ou da ciência, comumente é associada à ecologia ou ambientalismo. Porém, para Jéssica, são conceitos assistencialistas, por vezes superficiais, que quantificam e economizam a Terra em parcelas mínimas de produção, devolvendo o mínimo para esse ecossistema similar à caridade. Hoje em dia, a solo terrestre é dissecado para o sistema latifundiário em cotas de produção, como úteis quando férteis e descartadas quando devastadas. A intenção que a artista quer trazer para essa instalação não é exatamente de falar do problema abrangente que ocorre em nosso sistema de produção atual no país, mas trazer de uma forma dolorida a relação subjetiva com a vida e o self que a Terra estabelece em um contexto artístico.

 

A presente proposta trata de apresentar na galeria um punhado de Terra disposto em retângulo, plastificado , isolado e extremamente limpo em um piso de concreto que se torna infértil e inútil, mas estético. É uma elegante e irônica realidade. Essa realidade se torna mais incômoda e instigante ainda quando temos à sua frente uma taça com uma planta viva, germinada, que está em cima de um cubo, ansiando por um punhado de terra, a mesma
terra que está diante dela, porém retida. Em condições convencionais a planta morrerá se não encontrar a terra. É uma dissecação e subtração da composição dos elementos essenciais à vida: A terra, água e a semente. Uma triste metáfora da vida. A grande assepsia da cidade, a repulsa pela terra, o ato de fechar os olhos para a decomposição ou para a magia que acontece no subterrâneo do encontro dos gérmens com a terra e a matéria orgânica traz uma desconexão com a vida fértil. Essa é a leitura que pretendo construir com esse discurso, originária de um sentimento definido em um conceito: Telúrico: que significa pertencente à Terra. Além da taça com a planta germinada viva e a terra retida em um material isolante e impermeável, estará disposto em outro cubo ao lado do primeiro descrito anteriormente, um tubo cilíndrico de vidro com uma planta seca confinada no mesmo recipiente com parafina em gel, encapsulando-a. Ou seja, nessa instalação totaliza-se a quantidade de 3 obras distintas compondo uma com a outra.

 

Esse discurso está presente desde 2012 em todo o percurso acadêmico de Jéssica Paiva como artista e faz parte de um conjunto de ações denominado a Poética da Varginagem, que simboliza um desafio, dor e prazer ao trabalhar com o elemento Terra, definido para a artista como matéria prima essencial. O filósofo e teórico Gaston Bachelard (2003), uma das fortes referências e apoio conceitual para esse trabalho, legitima a vontade, tida também como uma necessidade do espírito humano de se refugiar na caverna da mãe terra, mantendo um contato estreito com a mesma, em uma busca de proteção inconsciente, assim como ele descreve em vários momentos em suas obras A Terra e os Devaneios do Repouso e A Terra e os devaneios da Vontade.

 

O desejo da artista é que a instalação seja instigante para o interlocutor, despertando pensamentos críticos e incômodos. O gérmen de abacateiro morto no recipiente representa o sentimento da perda, do término, do fim de um ciclo. Essa relação com o ambiente e seus recursos propostos dentro um contexto artístico formal como uma exposição, transforma as relações entre arte e natureza, alargando os sentidos do papel da arte e do artista frente ao meio ambiente.


Data: 28/03 a 26/04
Horário: Seg a Sex 7h às 22h e Sáb 7h às 17h
Local: Câmpus 1 - Salão Angelim - Mapa
Informações: Divisão de Cultura - cultura@furb.br - (47) 3321.0399
Publicação: Cultura

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