Mulheres na TI: flexibilização de trabalho favorece equilíbrio, mas pode intensificar dupla jornada, revela Pesquisa FURB

Mulheres na TI: flexibilização de trabalho favorece equilíbrio, mas pode intensificar dupla jornada, revela Pesquisa FURB

Foto: Internet

Um estudo realizado no Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Regional de Blumenau (PPGAd/FURB) revelou que modelos de trabalho flexíveis adotados pelo setor de Tecnologia da Informação (TI) favorecem o equilíbrio entre vida pessoal e profissional de trabalhadoras do setor. Por outro lado, trabalhar de forma remota ou em horários flexíveis também pode intensificar a dupla jornada quando as profissionais estão submetidas a grandes cargas de trabalho doméstico. O estudo foi conduzido pela pesquisadora Nicole Cristina Rodrigues, Mestre em Administração, sob orientação da professora Cynthia Boos de Quadros, Doutora em Desenvolvimento Regional. Na avaliação das pesquisadoras, o estudo demonstra que a flexibilização, embora positiva, pode não ser suficiente para um bom equilíbrio entre vida e trabalho dadas as desigualdades estruturais que atravessam a vida fora da empresa.

Rodrigues ressalta que o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho tem se tornado uma preocupação das empresas, tendo em vista seus potenciais impactos sobre a retenção de talentos e geração de resultados. Nesse sentido, modelos de trabalho flexíveis, como o home office, têm sido oferecidos como benefícios aos profissionais de diversos setores, entre os quais se destaca o de Tecnologia da Informação. O estudo conduzido pelas pesquisadoras coletou e analisou respostas de 150 mulheres que atuam em funções técnicas em empresas de TI e revelou que a flexibilização atua como preditor positivo para um bom equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Ao mesmo tempo, muitas profissionais hesitam em adotar modelos flexíveis de trabalho por receio de serem prejudicadas na progressão de carreira.

Segundo Rodrigues, a explicação para isso pode estar na cultura organizacional das empresas do setor, marcada pelo conceito de um “trabalhador ideal” com disponibilidade infinita de tempo, sem responsabilidades domésticas e sempre acessível, um modelo historicamente masculino. Apesar do crescimento da presença feminina no setor de Tecnologia da Informação (que já chega a 30% das matrículas em cursos superiores), a participação das mulheres em funções técnicas nas empresas ainda gira em torno de 20%, caindo ainda mais quando se fala em cargos de liderança.

 

Carga de trabalho doméstico neutraliza benefícios da flexibilização

 

Além do impacto da flexibilização do trabalho sobre o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, a pesquisa avaliou também a influência do trabalho doméstico sobre esse cenário. Para mulheres que são as principais ou as únicas responsáveis por tarefas domésticas, os benefícios da flexibilização são significativamente reduzidos ou até neutralizados, pois a necessidade de cuidados com a casa ou com outros membros da família borra os limites entre trabalho e vida pessoal, aumentando a sobrecarga.

“Mais da metade das mulheres são responsáveis sozinhas pelas responsabilidades domésticas e de cuidado. Entre as que têm a maior parte das responsabilidades sozinhas, elas têm um work-life balance menor, mesmo com a flexibilização do trabalho. Para as mulheres que têm essas atividades de responsabilidade doméstica feitas por outra pessoa, é um outro resultado, porque daí não chega a ser algo que toma o seu tempo. E para quem tem responsabilidades domésticas divididas com companheiro ou companheira, também varia o work-life balance”, explica. Na avaliação da pesquisadora, a eficácia das políticas organizacionais que buscam promover o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é diretamente influenciada pela desigualdade estrutural de gênero presente nos lares brasileiros.

“Nossa vida é organizada a partir do trabalho, então eu não posso estudar o trabalho ou entender a importância das empresas na sociedade sem olhar para o efeito que isso tem na vida das pessoas porque está tudo ligado. Todas as grandes transformações do mundo do trabalho também trouxeram transformações para o cotidiano. Então, não dá para olhar só para dentro da empresa, é preciso olhar para além do que acontece dentro das paredes da empresa”, ressalta.

A pesquisa identificou, ainda, que as profissionais contratadas pelo modelo CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) apresentam melhor equilíbrio percebido entre vida pessoal e profissional em relação às profissionais que atuam como PJ (pessoa jurídica). Na avaliação de Rodrigues, o resultado pode ser explicado pelo fato de que grandes empresas, que contratam via CLT, costumam oferecer programas para melhorar a qualidade de vida e motivação dos funcionários (o que não ocorre para profissionais que não possuem vínculo empregatício). A previsibilidade financeira e as garantias sociais de que dispõem as funcionárias contratadas também influenciam positivamente a percepção sobre o equilíbrio entre vida e trabalho.

 

FURB Pesquisa

 

O trabalho foi tema do programa FURB Pesquisa desta semana: