Pesquisa FURB investiga efeitos de agrotóxicos sobre diferentes espécies de abelhas nativas
Por Camila Maurer [29/04/2026] [14 h06]
Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Universidade Regional de Blumenau (PPGBio/FURB) investiga como diferentes espécies de abelhas nativas sem ferrão reagem à exposição aos agrotóxicos. O estudo é conduzido pela pesquisadora Mara Quintão, mestranda em Biodiversidade, sob orientação do professor Eduardo Alves de Almeida, Doutor em Bioquímica. Resultados preliminares confirmam que diferentes espécies de abelhas nativas reagem de formas diversas à exposição por um mesmo agrotóxico.
Ainda que os efeitos dos agrotóxicos sobre as abelhas sejam objeto de muitos estudos, os testes ecotoxicológicos costumam usar apenas uma espécie – exótica – como modelo. “O que questionamos é até que ponto essa espécie pode representar toda a nossa biodiversidade”, destaca a pesquisadora. Como espécies exóticas costumam ser mais resistente do que as nativas, a pesquisadora destaca a importância de conhecer o nível de vulnerabilidade de abelhas nativas, bem como investigar a diferença de vulnerabilidade entre diversas espécies do mesmo grupo.
A pesquisadora explica que as abelhas são importantes agentes polinizadores, motivo pelo qual desempenham papel central para a conservação da flora e de culturas agrícolas. As abelhas formam um grupo diverso, que vai além da espécie mais conhecida, de corpo preto e amarelo, temida pelas ferroadas doloridas. O Brasil abriga cerca de 2,5 mil espécies de abelhas. Cerca de 300 delas integram o grupo dos Meliponíneos, popularmente conhecidas como abelhas nativas sem ferrão ou abelhas indígenas sem ferrão. “Os nomes populares de algumas espécies são de origem indígena, como Jataí, Mandaguari, Mandaçaia, Tubuna, então povos e comunidades tradicionais tinham o conhecimento dessas espécies”, destaca.
O processo de pesquisa envolveu a coleta de abelhas nativas sem ferrão de diversas espécies em colônias saudáveis, algumas delas localizadas no Meliponário da FURB. Em laboratório, as abelhas foram expostas a diferentes concentrações de agrotóxicos para acompanhamento da mortalidade e efeitos subletais. “A gente sabe que nem todo impacto causa a morte imediata, então também avaliamos os efeitos subletais, através de análises bioquímicas. Avaliamos enzimas importantes para o funcionamento tanto do sistema nervoso quanto do comportamento de defesa dessas abelhas”, explica a pesquisadora. Com base nessas análises, a pesquisadora é capaz de avaliar não apenas o modo como os agrotóxicos afetam as abelhas, mas as variações de vulnerabilidade entre elas.
O estudo está em fase final de experimentos e deve ser defendido em junho. Os resultados preliminares confirmam que há variações de vulnerabilidade mesmo entre abelhas que compõem o mesmo grupo (neste caso, o grupo do Meliponíneos), ou seja, cada espécie reage de forma diferente à exposição aos agrotóxicos. “Esses resultados reforçam que não podemos generalizar usando uma única espécie representando toda a nossa biodiversidade”, enfatiza. Na avaliação da pesquisadora, ampliar o conhecimento sobre as espécies de abelhas nativas é essencial para que se possa conservá-las. “Quando entendemos essas diferenças de vulnerabilidade, podemos pensar em estratégias de conservação, em práticas agrícolas mais sustentáveis e políticas públicas sensíveis voltadas à proteção desses polinizadores”, conclui.

