Professores da FURB fomentam implementação de grupos reflexivos para homens autores de violência doméstica e familiar

Professores da FURB fomentam implementação de grupos reflexivos para homens autores de violência doméstica e familiar

Foto: FURB

Professores do Departamento de Serviço Social da Universidade Regional de Blumenau (FURB) trabalham no fomento à implementação de uma iniciativa que tem mostrado bons resultados no enfrentamento à violência doméstica e familiar: os grupos reflexivos para homens autores de violência. Cleide Gessele e Ricardo Bortoli, ambos Doutores em Serviço Social, trabalham em atividades de extensão, pesquisa e formação que buscam disseminar e fortalecer a prática, voltada a promover a responsabilização dos participantes e problematizar o machismo que está na base da violência contra a mulher.

Blumenau foi uma das primeiras cidades do país a implementar esse tipo de grupo, em 2004, antes mesmo da existência da Lei Maria da Penha. Bortoli, assistente social do município, participou ativamente da criação do primeiro grupo, nascido da necessidade de incluir os homens no processo de enfrentamento à violência contra a mulher. “Em 2003, uma mulher permaneceu por quase quatro meses em uma casa abrigo. Quando ela saiu, em 27 de março de 2003, foi assassinada em frente aos filhos pelo ex-companheiro. Os profissionais que atendiam as mulheres que iam para a casa abrigo não tinham abordado esse homem, não tinham feito visita, contato telefônico ou atendimento. Junto com outros colegas, percebi na época a necessidade de chamam os homens como forma de, talvez, evitar que esse homem persistisse a praticar violências”, conta.

Os grupos reflexivos são espaços de encontro nos quais homens autores de violência participam de discussões estruturadas sobre questões como masculinidades, relações de gênero, poder, responsabilidades e direitos das mulheres. Diferentemente de uma palestra ou terapia em grupo, os grupos reflexivos seguem uma metodologia específica, com base conceitual e legal. O objetivo é permitir que os participantes reflitam sobre suas trajetórias e compreendam o impacto de seus comportamentos, contribuindo para a construção de relações mais respeitosas e igualitárias. Os encontros são realizados de forma periódica, com a mediação de facilitadores capacitados especificamente para essa finalidade. Atualmente, Blumenau conta com cinco grupos em funcionamento que realizam encontros semanais promovidos no âmbito da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semudes). Estima-se que mais de 2 mil homens já tenham participado de grupos reflexivos no município desde sua implementação.

Na avaliação dos pesquisadores, os grupos reflexivos são instrumentos fundamentais para o enfrentamento à violência contra a mulher, quando articulados aos demais elos da rede de proteção social e estruturados como políticas públicas efetivas e contínuas no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). “O grupo reflexivo é uma ação eficaz quando se constrói vínculo. Por isso, não pode ser uma ação pontual. Os encaminhamentos do sistema de Justiça colocam no mínimo 12 encontros, que tem duração de uma hora e meia. É um círculo onde os homens conversam e o facilitador ou facilitadora deve ter conhecimento sobre questões de gênero e masculinidades para poder implicar esses sujeitos a pensar através de indagações”, explica Bortoli. As estatísticas reforçam o potencial da metodologia: a taxa de reincidência entre os homens que participam dos grupos não chega a 5%. Na avaliação de Gessele, os bons resultados indicam a possibilidade de empregar a metodologia dos grupos também na prevenção dos casos, no âmbito da proteção social básica.

 

Professores desenvolveram material para o Ministério do Desenvolvimento Social para guiar implementação de grupos

 

Gessele e Bortoli têm se consolidado como referências no estudo da metodologia adotada pelos grupos e na formação de facilitadores capazes de mediar os encontros. Pesquisas conduzidas por eles deram origem a um caderno de orientação técnica para o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. O material é voltado à implementação de grupos reflexivos no âmbito do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e oferece orientações técnicas para que municípios de todo o país possam estruturar e qualificar suas iniciativas, garantindo solidez metodológica e alinhamento às políticas públicas. O material está em fase final de ajustes e a expectativa é de que seja publicado no segundo semestre deste ano.

Além da elaboração do material, os professores têm ministrado formações para profissionais de todo o país, contribuindo para fomentar a consciência sobre a importância de incluir os homens no enfrentamento à violência e disseminando a metodologia dos grupos. Em abril, Gessele e Bortoli participaram de uma reunião com comitiva do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em Blumenau sobre a implementação de grupos reflexivos. A visita da comitiva integrou os esforços de um grupo de trabalho instituído pelo CNJ que busca fomentar ações que contribuam para o fortalecimento, padronização e institucionalização de grupos reflexivos. Na ocasião, os representantes do CNJ reconheceram o pioneirismo e o sucesso da inciativa conduzida pelo município, além de destacarem a posição de referência dos pesquisadores do Departamento de Serviço Social da FURB.

Atualmente, já são cerca de 700 grupos reflexivos em todo o país, um número expressivo, mas ainda insuficiente diante da dimensão do país e dos índices de violência contra a mulher. “Para enfrentar a violência contra a mulher, não é suficiente trabalhar com as mulheres. Enquanto não trabalharmos com os homens, não vamos avançar na diminuição das estatísticas que nos impactam todos os dias”, destaca Gessele.

 

FURB Pesquisa

 

O trabalho foi tema do programa FURB Pesquisa desta semana: